sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Espaço Vital

Nas circunstâncias o conflito (e que outro termo usar?) é inevitável. Primeiro, porque estão sentados lado a lado; segundo, porque se trata de poltronas de avião, cujos braços, na classe turista, são necessariamente estreitos; e terceiro, mas não menos importante, porque ela é gorda. Deus, muito gorda. Transbordaria de qualquer assento, especialmente daquele. Além disso, quer ler; não um pequeno livro de bolso, ou uma revista, um mesmo tablóide. Não: é um jornal grande que ela escolhe, um matutino. Edição dominical, prometendo longa, longa leitura. Todo o tempo do vôo pelo menos.

O avião decola, jogando basquete - chove torrencialmente -, mas nem por isso ela abandona o jornal. Com os braços abertos, e absorta na leitura, comprime-o contra a janela. Ele decide que está na hora de executar a operação resistência. A primeira coisa a fazer é adverti-la sobre a invasão de espaço alheio. Para isso, encostou o cotovelo (espera, mas não tem certeza disso, que ela o perceba com um duro cotovelo) no braço dela, exercendo discreta pressão. Não sabia ao certo se a demasiada camada braçal causava certa insensibilidade sensorial de tal forma a não sentir o cotovelo empurrar-lhe de leve ou se o sentia e ignorava. Como se não bastasse, para completar o incômodo, a senhorita, que quase ocupava dois assentos, abre uma embalagem e começa a mascar um chiclete. Os ruídos pareciam os de um antigo relógio de pêndulo: insuportáveis! Após um tempo de cutucadas, acompanhadas do mutismo da vítima, tomou a falta de resposta como rudeza e, esgotada a paciência, decide comunicar a incômoda invasão verbalmente.

Ela, que se fingia absorta pra encobrir seus interesses, mal lia as notícias do jornal. Sentindo pequenos arrepios, pensava em como reagir aos cortejos do rapaz ao lado que supostamente lhe acariciava o braço. Envergonhada e sem ação, coloca um chiclete na boca (mania que tinha de doce pra diminuir a ansiedade) e chicoteia o ar com o som das mascadas, paralelo ao do coração.

De súbito, os dois se viram. Ele, na busca de espaço vago; ela, de preencher o vazio. Ele, de afastamento; ela, proximidade. Conversam. Resolvem-se. Ele, agora tranqüilo, dorme e sonha o resto da viagem; ela, despedaçada, apenas abandona mais uma ilusão...

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

O Beijo

De repente, turvou-se o olhar e tombou-se o corpo, que se não se apoiasse em outro corpo, certamente cairia lenta e delirantemente e só voltaria a si com o baque, mas ainda sim com um sorriso evidente na face, que de tão encarnada numa nova personalidade, demonstrava a confluência do prazer do esquecimento do cotidiano e dos delírios do não pensar. Essa sensação sonolenta, quente, prazerosa, sensual, foi tão rápida, mas tão elétrica que fez todo seu corpo formigar. Nunca se sentira assim, tão transcendente, e ainda: por um simples beijo...

Pintura: "O Beijo"
Gustav Klimt

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Felicidade


Felicidade

Tudo que buscamos na vida é o equilíbrio, e é dele que esperamos extrair a felicidade. Com tanta procura, esquecemo-nos da certeza humana que nos rege: o equilíbrio é apenas a ponte, ainda temos um longo caminho pela frente e não podemos esperar encontrá-lo só com a estabilidade de nossas vidas. É preciso que haja comedimento, mas audácia nas boas horas. A boa vida é a vida equilibrada, nada de mais nem nada de menos. As pessoas geralmente carregam a tendência de se auto-destruir por pequenos momentos de felicidade intensa - felicidade mal distribuída - e o que sobra é a tristeza, que diferentemente da felicidade, se aloja como um parasita e só vai embora com muito, muito trabalho; um jeito exaustivo de se viver... Tem gente que fala que felicidade não existe, o que existe são momentos felizes. Particularmente acho o ditado um tantinho equivocado. Tá certo, têm aqueles momentos com a namorada, uma flor repentina, uma borboleta na orelha, um sujado de tinta, um soco de esquerda, um beijinho no nariz, um bichano pelo chão, aquelas baratas voadoras, o desabrochar de um sorriso (do teu sorriso, que tanto me abala); são momentos felizes? São, mas são também a felicidade plena, pois vão ficar gravados na nossa memória para sempre, e qualquer coisa que nos cause uma boa lembrança, ou uma oportunidade de repeti-la, é indício de alegria; ah! Nunca saberemos o quão realmente difícil é apagar um bom momento, mais do que os maus; bons momentos se perpetuam; tudo o que fica de bom de uma vida, tudo o que se pode lembrar e servir de alívio para as dificuldades futuras, todas as nossas vivências, os nossos amores, as nossas carências, os nossos gritos, sussurros, beijos, mordidas. Independente do que nos aguarda, viver é reviver, e aquele sorriso que você um dia se lembrará ter dado na infância, muitas vezes se repetirá, mesmo que inconscientemente, nos seus outros sorrisos...

Pintura: "Girassóis" Van Gogh

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Equilíbrio



Haverá o dia em que minhas pernas ficarão grandes demais em relação ao meu corpo; espero conseguir manter o contato entre os dedos das mãos e dos pés quando isso acontecer.